Neste manancial de partidos políticos presentes na vida dos brasileiros, é quase impossível diferenciar projetos políticos, visões de mundo e de sujeitos e sujeitas.

Para opinião pública é tudo muito parecido nas ações de todos governos e ainda estimulados por uma deliberada confusão promovida pelos meios de comunicação conservadores, que através de um determinado viés de interpretação da realidade, que lhes interessa é verdade, promove chavões populares do tipo: político é tudo igual, torna realmente tudo igual para o eleitor médio.

A verdade é que para o cidadão e a cidadã de todas as classes sociais acostumados a um ensino não crítico, mas orientado para a “decoreba” de conteúdo, não tem a prática de comparar, analisar e encontrar diferenças entre os atores políticos de governo.

Nem mesmo os progressistas, muitas vezes possuem o acumulo necessário para saber quando se conduz um programa ou projeto de referencial progressista com práticas conservadoras.

Para o pragmatismo imediatista de vencer eleições é verdade que para o eleitor e eleitora comum um governo efetivo significa muito pouco ou nada.

O eleitor médio ainda vota baseado em critérios subjetivos da personalidade do candidato ou candidata. Vota em homem e não em mulher. Se é bonito ou feio. Se é simpático ou simpática. Se o candidato ou candidata diz ou não o que quero ouvir.

É por isso que candidaturas conservadoras fazem pesquisas de opinião como nas novelas. As novelas têm pesquisa de opinião para os “gênios da dramaturgia global” tornarem-se bons escritores, ou seja, se estão dizendo o que o público quer ouvir.

É assim que os partidos conservadores fazem seus programas de televisão e rádio no período eleitoral: pesquisas de opinião para ver se o que os seus candidatos estão dizendo é o que o povo quer ouvir.

Os conservadores votam assumidamente em pessoas e não em projetos. E preferencialmente pessoas assumidamente preconceituosas. Os conservadores votam em pré-conceitos: gênero, orientação sexual, raça, e no discurso sem prova de efetividade, etc.

Para os progressistas a eleição opera uma dificuldade conceitual. Pois os de esquerda votam em projetos, em políticas públicas que dialoguem “supostamente” com os anseios sociais de igualdade de direitos e oportunidades. O que do ponto de vista eleitoral, é muito mais difícil para o eleitor médio fazer a relação de “falta de Estado, exclusão, violência e direitos humanos” do que a oferta “bandido bom é bandido morto”. Uma equação muita mais simples de resolver.

Vejam que aqui não estou falando de classe social, pois conservadores e progressistas estão em todas as classes sociais.

Achar que a classe se orienta sem trabalho pedagógico permanente é um erro que permite pensar que por ser oprimido assumirá valores humanistas. Isso explica, para dizer o mínimo três grandes líderes dos nossos dias: Temer, Bolsonaro e agora Trump.

De outra forma, também por equívoco, nós de esquerda, pelo fato de que governos como o de Olívio Dutra e Tarso no RS, perdem a eleição para um “um posto de saúde em cada esquina” e “buscar o piso na Tumelero”, abandonamos em períodos não eleitorais da sistematização de dados dos governos, sejam os nossos, sejam os de conservadores. Durante períodos não eleitorais nos orientamos empiricamente. Aí durante o processo eleitoral um grande esforço de análise e interpretação de dados e informações. “A toque de caixa.”

Não percebemos que pelo fato da orientação ideológica de um governo se materializar na execução das suas políticas públicas, é no resultado prático da execução que estão os dados e as informações da sua contradição. Seja qual for a orientação ideológica de um governo. Não reconhecemos que é na prática. No programa ou no projeto que modifica ou não a realidade do cidadão e da cidadã que mora a contradição do discurso eleitoral.

Não só eleitoral como de fundo conceitual como o projeto de mundo, sujeito e vida que cada partido político representa.

A Gestão Pública possui no mínimo dois olhares possíveis para governos: como estratégia ou como uma política pública propriamente dita. Como estratégia de um governo ela é a forma ou o método como todas as políticas públicas serão efetivas ou não. E como política pública, o quanto o governo é indutor através de programas e projetos de que em uma sociedade a gestão de todos e todas se tornem mais efetiva.

Mas efetivamente para existir avanço nas ações de governo e nas políticas públicas de maneira geral, na gestão precisamos de dados e informações quantitativos e qualitativos para analisar e corrigir rumos. Cultura ainda muito pouco desenvolvida no Estado brasileiro. Sem informações sistematizadas, é puro discurso “político” desprovido da possibilidade do contraditório, desprovido de dialética, desprovido de contradição.

O caso brasileiro é interessante. Quem sistematiza informações, analisa os dados e oferece as correções de rumo, é o jornalismo “investigativo” conservador.

Traduzindo o que estou a defender: gestão pública é central na contradição que existe entre governos de diversos matizes e torna-se elemento pedagógico na disputa de projetos políticos de agentes de governo para compreensão dos cidadãos e cidadãs, de quem é quem na política.

Exemplo: muito se argumenta da suposta ineficiência do Estado baseada em uma relação direta com o tamanho da folha de pagamento. Sem nenhum tipo de análise científica, os meios de comunicação e alguns políticos e programas eleitorais alardeiam: a segurança, educação, saúde, assistência social, etc., não funcionam. A causa disso é uma estrutura muito grande e muito funcionário e funcionária que não permite investimento na própria política em questão. Mas quando investimos na política pública investimos no que? Num posto de saúde, em uma escola, em um presídio para falar da atualidade. Em cadeiras? Em computadores? Telefones? Papel? Etc.

Quem faz isso funcionar? Não é o trabalhador e a trabalhadora?

Como pode o cidadão e a cidadã votar em um projeto político que diz que o SUS não funciona e que para fazer funcionar vai cortar gastos de pessoal?

Como podem os cidadãos e cidadãs imaginarem que a saúde vai melhorar sem técnico e técnica de enfermagem, enfermeiro e enfermeira, sem agentes de manutenção, médicos e médicas?

A transparência pretendida, defendida e divulgada é financeira.

Saber quanto o fulano ou fulana ganha de salário. Quanto tem de passagens e diárias. Se o Deputado vai ou não trabalhar. Na transparência está presente se ele ou ela foi, mas não o que fez. Que projetos defendeu?

Óbvio que os conservadores vão recortar meus argumentos e dizer que sou um “petralha que defende a farra financeira”.

Vou ser mais claro então para ver se ajuda. Para as práticas de governos serem transparentes precisam liberar todos os dados que compõem o fazer do seu governo e de maneira permanente, sistematizada e sistematicamente.

E a esquerda, como se contrapõe a isso? Não se contrapõe. Trabalha em uma política reativa e não estratégica. Trabalha com fatos políticos tirados da própria pauta conservadora e que só vem a público dentro de uma estratégia conservadora. Normalmente capitaneada pela imprensa conservadora.

A direita não tem nenhum problema que as coisas sejam assim.

Tá bom do jeito que tá.

Eles ganham eleições mandando os professores que queriam o piso da categoria procurar piso no Tumelero, parcelam salários e dá na mesma. Ninguém bate panela.

No dia de hoje, a manchete de jornal de grande circulação é “racionalização da educação” com dados e informações “pueris” que a justificam. Se tivéssemos dados sistematizados provaríamos tecnicamente e não apenas politicamente que se trata de “diminuição de investimentos na educação”. O que é politicamente incorreto em qualquer ideologia.

A verdade é que progressistas não possuem elementos técnicos sistematizados para a disputa. Trabalhamos a mesma base de dados dos conservadores. Não descemos nos elementos que realmente dizem respeito a vida prática do cidadão e cidadã.

É um debate por cima. No macro.

A Gestão Pública como estratégia para uma efetividade das políticas públicas, demonstrará o resultado prático na vida do cidadão e cidadã e é um verdadeiro instrumento pedagógico para conhecermos a identidade ideológica dos Governos.

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14/nov/2016
Por Fabrício Rocha, publicado originalmente no portal Sul 21
Fabrício Rocha é Psicólogo, Especialista em Organizações e Análise Institucional pela UFRGS.